A primeira década do século 21, que já está perto de acabar, está em sério perigo de ser lembrada como o tempo em que fama eram medidas em pokes, tweets e o alto grau de habilidade em apostar e desafiar a morte (e às vezes não desafiam a morte) de algumas pessoas imprudentes em reality-shows. Mas quando a porta estava quase fechando desse jeito, vem caminhando – ou mais apropriado, passeando – Kristen Stewart.

Aos 19 anos, Stewart já ganhou um lugar nos anais da história da cultura pop. Isso se deve a ela ser a protagonista de Twilight, que – no caso de você ter conseguido escapar de alguma forma desse  sucesso que  engoliu a juventude americana — é um filme baseado no primeiro de uma série de livros muito populares sobre vampiros, lobisomens e a vida adolescente na cidade  de Forks, em Washington. O personagem de Stewart é Bella Swan, recém-chegada em Forks, que é forçada  a lidar com a pressão de começar uma nova vida em uma nova escola e o fato de seu provável namorado, o estiloso Edward Cullen (interpretado pelo estiloso Robert Pattinson), é um morto-vivo sugador de sangue de 104 anos de idade.

Dada a preocupação de Twiligh com temas atemporais de juventude incompreendida, amores juvenis e problemáticos e interferência de forças sombrias , o sucesso do filme não é nenhuma surpresa. (Até a data, ganhou mais de $380 milhões de dólares pelo mundo) Nem é o fato que mais de Twilight estar sendo feito: o segundo filme, New Moon, chega aos cinemas em novembro, e o terceiro, Eclipse, sairá ano que vem. Mas o tamanho do crescimento e da complexidade da máquina de Twilight tem algumas consequências inevitáveis:

Em menos de 12 meses, Stewart se tornou figura regular nos tablóides e é o centro das atenções em vários blogs. O fato do personagem dela em Twilight ser romanticamente ligado ao de Pattinson no filme gerou uma especulação sem fim se eles estão juntos na vida real ou não. CONSTRUINDO UMA CASA? e CASANDO? Foram apenas umas das últimas notícias. Entre as filmagens das sequências de Twilight, Stewart interpretou  Joan Jett na nova cine-biografia de Floria Sigismondi, The Runaways; até seu cabelo para o filme—que foi cortado e pintado como o de Jett no final dos anos 70, inspirou muitas críticas da mídia.

Kristen cresceu em Los Angeles, numa família de Hollywood —sua mãe é supervisora de roteiros e seu pai é  diretor de palco—e desde criança anunciava seu interesse em trabalhar em frente das câmeras. Seu segundo filme foi “O Quarto do Pânico”, um triller de David Fincher, de 2002, em que ela fez a filha de Jodie Foster, provando cedo sua habilidade de atuar, jovem, porém não precoce. Sua performance não tão central em Into the Wild (2007), dirigido por Sean Penn, e Adventureland, deste ano, só reforçaram isso. Mas se essa é a linha que percorre seu relativamente pequeno currículo de trabalhos, está um pouco conectada com a ideia de que não se precisa ser velha para se ter alma. Com Stewart, você não vê 19 anos tentando parecer ser 35. O que você capta  é uma janela visceral do que significa se ser jovem e lutar para sua própria vida e todo o mundo fazer sentido em volta de você – e  tudo alternando em ondas de obscuridade, confusão, brilho e todas as possibilidades que vem com tudo isso. De muitas maneiras, isso é agora a natureza da história ainda não escrita de Kristen, com coisas surreais e recentes idas e voltas, que nos atraem a vê-la. É verdade que ela pode ser muito bem tida como a rebelte pelos seus contemporâneos. Ou, como Bella Swan, ela pode apenas parecer com alguém que vem de algum lugar, encontra sua maneira de fazer alguma coisa excepcional e pega seu caminho para algum outro lugar. De qualquer forma, ela tem uma base sólida.

Em comemoração dos 40 anos da Interview, nós pedimos para ao ator, diretor, escritor e fotógrafo Dennis Hopper—cuja conecção com a revista passa através dessas 4 dácadas—para fazer uma entrevista para nossa capa. Ele graciosamente aceitou. Ele falou com Kristen  Stewart, que está filmando Eclipse em Vancouver, do set da série de TV, Crash, em Albuquerque, Novo México.

DENNIS HOPPER: Antes de começarmos, eu tenho uma filhinha de seis anos que está louca agora porque você está no telefone comigo. Posso colocá-la no telefone só por um segundo para dizer oi para você?

KRISTEN STEWART: Sim, é claro.

HOPPER: Ok, o nome dela é Galen. [com o telefone na mão]

GALEN HOPPER: Oi!

STEWART: Oi! Como vai você?

GALEN: Bem.

STEWART: Muito legal conhecer você, Galen. [pausa] Alô?

GALEN: Oi!

HOPPER: [pegando o telefone] Ela está tão empolgada.

STEWART: Nossa, isso me deixou tão nervosa!

HOPPER: Isso lhe deixou nervosa?

STEWART: Sim. Eu meio que me sinto intimidada por crianças.Eu não sei o que dizer.

HOPPER: Bom, obrigado por fazer isso. Então, como vai você?

STEWART: Eu estou muito bem. Eu não sou muito boa em entrevistas, mas é uma viagem. Porque, meu deus, você quis fazer isso? Você não tem ideia de como isso é legal para mim.

HOPPER: Bom, você é realmente uma boa atriz. E minha filha é a sua maior fã, então eu pensei, porque não? [risos] Eu normalmente não faço isso também. Mas você deve estar passando por muita coisa agora, do jeito que Twilight está repercutindo. Você não deve ter paz de forma alguma.

STEWART: O triste disso é que eu me sinto tão chateada porque Twilight é literalmente como começa toda conversa que eu tenho esses dias — podendo ser uma pessoa que estou encontrando pela primeira vez ou uma pessoa que não vejo há muito tempo. A primeira coisa que quero dizer a eles é “É muito louco! E, como pessoa, eu não posso fazer nada!” Aí eu penso comigo mesma, ai meu Deus, cala essa boca.

HOPPER: [ambos rindo] Você sabe, está nos dando performances realmente muito boas. Desde que você não sabia que faria a sequência enquanto filmava o primeiro Twilight, foi muito difícil voltar ao personagem para os novos filmes?

STEWART: Eu sempre me interesso por seguir o personagem mais a longo termo, mas o único lugar onde um ator pode fazer isso é numa série de TV. Mas a série de filmes Twilight é legal porque você sabe o que está na sua frente—todos os livros já foram escritos.E há intervalos entre eles. É meio deprimente perder uma personagem bem quando se consegue conhecê-la. Normalmente, no final do filme é quando eu consigo conhecer totalmente a pessoa do personagem, e aí já acabou. Isso aconteceu no set de Twilight,e aconteceu de novo em New Moon. Cada vez a minha personagem Bella se torna uma pessoa diferente, e eu consigo conhecer essa pessoa e levá-la para o próximo nível.

HOPPER: Você foi capaz de aproveitar isso? Ou você sente mais pressão em fazer essas sequências?

STEWART: Eu sinto uma pressão maior do que se fosse um outro filme qualquer. Normalmente, o que te leva é a sua própria responsabilidade com o roteiro, com o personagem e com as pessoas com quem se está trabalhando. Porém nesse caso, eu tenho a responsabilidade não só sobre isso como também sobre todas as pessoas que tem envolvimento pessoal com os livros – e agora isso se expande ao mundo. É um conceito maluco. Há certas coisas em Twilight…Tanto quanto eu me orgulho do filme e gosto dele, eu sinto que levei muito de mim mesma para o personagem. Eu sinto que realmente conheço Bella agora. Mas a maioria dos leitores também sentem que conhecem Bella por causa da narrativa, que é feita em primeira pessoa. Ela é um pequeno recipiente e todos experenciam a história por meio dela. Todas essas garotas que são fãs sentem como se estivessem encapsuladas no personagem. Então, é como, “Como é que eu fazer isso por todas elas? É impossível!” Mas eu decidi, se você é descaradamente honesta o tempo todo, você não tem do que se envergonhar.

HOPPER: Esses livros Twilight tem uma parte sombria…

STEWART: Mas os livros não são assim sombrios, não tanto quanto gostaríamos de ter feito esses filmes. Mas tanto  é bonito de se assistir quanto é ver esses dois personagens encontrarem conforto um no outro, quando tudo em volta deles está um absoluto caos. Eu quero dizer, você tem que questionar as motivações deles — ver duas pessoas tão devotadas uma à outra de uma forma nada saudável…Eu fico atrás de tudo que eles fazem. Eu tenho que justificar tudo na minha cabeça ou então eu não ia conseguir interpretar o personagem. Mas eles defitinivamente não são os personagens mais pragmáticos. Os temas mais estranhos acontecem nessa história—como dominação e masoquismo. Quer dizer, você tem que entender que essa história tem que fazer sentido para crianças de 11 anos que leram o livro e que não necessariamente vão ver a cena como preliminares. Mas há outro segmento de público – uma porcentagem bem grande – que vai ver a cena como preliminares. E é bem profundo, preliminares pesadas. [risos] Então, é divertido fazer das duas formas. Assim, eu não sei como é dar uns amassos com um namorado vampiros porque não é nada que ninguém já tenha sentido. Mas é engraçado pensar que o nosso público de 10 anos de idade um dia vai crescer e um dia vai perceber muito coisa de Twilight que eles nunca haviam visto antes.

HOPPER: Bom, você está recebendo muita atenção.

STEWART: É, é estranho. Há uma ideia de quem eu sou eternamente projetado em mim, e então eu quase que sinto que deveria cumprir esse papel. Mesmo quando as coisas saem da minha boca, eu quero ter certeza que estou dizendo exatamente o que eu quero dizer. Tudo que eu fico pensando é o fato de que tudo que eu falo vai ser criticado, avaliado e analisado. E é sempre alguma coisa que importa muito para mim que não sai certo. Mas em termos de como minha vida mudou, eu nunca saia muito antes. Eu sou o tipo de pessoas introspectiva. Eu queria poder sair, dar umas caminhadas…

HOPPER: Você não pode dar umas caminhadas?

STEWART: Eu queria sair mais depois do trabalho, ao invés de ter que voltar para meu quarto de hotel e não sair de lá. Isso pode ser bem chato. Eu tenho trabalhado como atriz desde bem novinha e conheço vários atores que não tem que lidar com ter uma persona…  Sabe, se você olha para a palavra persona, não é nem real. Todo o significado da palavra é inventada e como se eu não conseguisse ser eu mesma. Isso pode ser irritante. Mas eu tenho um pressentimento bom de que isso vai passar, isso é o mais intenso que isso vai chegar – e que poderia chegar – e que isso é efêmero. Então em alguns anos eu serei mais parecida com a pessoa que eu quero ser.

HOPPER: Incomoda muito ver você mesma nos tablóides?

STEWART: Não tem nada que se pode fazer a respeito, para ser honesta. Eu não saio do meu quarto de hotel —literalmente, eu não saio. Eu não falo com ninguém sobre a minha vida pessoal  e isso talvez se perpetue. Mas o que realmente importa é você ter o que você quer ter e manter isso para si mesma. Dito isso, a única maneira de não ter ninguém sabendo onde eu fui a noite passada é não saindo de forma alguma. Então é com isso que estou lidando. Isso depende do meu humor. Algumas noites eu penso “Quer saber? Eu não ligo. Eu só vou fazer o que eu quero fazer.” Então no dia seguinte eu penso “Ai… Agora todo mundo pensa que eu saio para ganhar atenção.” Mas é tipo, não, eu na verdade, por um segundo, penso que talvez eu pudesse ser como uma pessoa normal.

HOPPER: Eu estava dando uma olhada em todos os filmes que você fez e que você trabalhou com pessoas extraordinariamente: Patricia Clarkson—meu deus, ela é uma ótima atriz—e Jodie Foster. Simplesmente uma pessoa maravilhosa. E suas performances são tão diferentes. Você começou com 9 anos.Voocê queria atuar, certo? Você não foi forçada a isso já que seus pais são da indústria do cinema?

STEWART: Não. De forma alguma.

HOPPER: Porque Dean Stockwell é um dos meus melhores amigos e tem histórias horríveis sobre atuar quando se é criança. Mas você queria fazer isso, né?

STEWART: É estranho esperar que uma criança tão novinha diga o que quer fazer, tipo atuar. Eu não sei se era uma inclinação natural para mim também, mas foi uma coisa que eu senti. Para ser honesta, eu me divertia a princípio. Foi a primeira coisa em que fui bem sucedida. Meus pais eram a equipe. Os dois ficaram perplexos por eu querer atuar. Mas eles apoiam tudo que eu e meus irmãos queremos fazer. Uma coisa que eu acho que era divertido era porque eu cresci em sets de filmagem. E então alguns anos depois eu cresci e atuar se tornou algo diferente para mim. Acho que eu tinha uns 13 anos.

HOPPER: Você estudou com alguém? Ou você fazia por associação?

STEWART: Não, eu só fui indo por esse caminho.

HOPPER: Você aprendeu lá. É o melhor lugar para se aprender. Eu vi “O Quarto do Pânico” de novo a noite passada.

STEWART: Sério? Eu não vejo faz tanto tempo. Foi o segundo filme que eu fiz. Graças a deus que Jodie Foster fez aquele filme porque eu não estava pensando em nada no set. Eu estava literalmente me divertindo com ela e sendo eu mesma. Eu nem posso pensar em assitir o filme, ia me matar. Ia ser como ver um filme caseiro.

HOPPER: Mas você estava tão bem nele. Você ia à escola enquanto trabalhava, quando era criança?

STEWART: Eu frequentei uma escola pública até o começo do colegial. Eu sei que estou um pouco atrada e um pouco velha, mas eu acabei de me formar na escola, com honras. Outro dia eu fiz a cena da graduação em Eclipse, e eu tinha acabado o colegial eu mesma na semana anterior, e então eu disse à equipe “Ei, então vocês sabem, eu estou graduando de verdade e não vou ter outra cerimônia.” Daí eu tirei um monte de fotos com os figurantes. Eu realmente pedi para um ator vir até mim e apertar minha mão e me entregar um diploma enquanto eu usava chapéu e beca.

Fonte: InterviewMagazine