6. Tipo sangüíneo

Eu a segui durante o dia todo através dos olhos das outras pessoas, abertamente consciente da minha própria vizinhança.

Não os olhos de Mike Newton, por que eu não conseguia mais agüentar suas ofensivas fantasias, e não pelos olhos de Jessica Stanley, por que seu ressentimento por Bella me deixava perigosamente nervoso. Ângela Weber era uma boa escolha, quando os olhos dela estavam disponíveis; ela era gentil – sua cabeça era um lugar fácil de estar. E algumas vezes os professores providenciavam a melhor vista.

Eu estava surpreso, assistindo ela tropeçar pelo dia – tropeçando na beira da calçada, deixando os livros cair, e muitas vezes caindo junto; nos próprios pés – através dos pensamentos das pessoas que ouvi achando que Bella era desastrada.

Eu considerei aquilo. Era verdade que ela muitas vezes teve a preocupação de ficar em pé, direito. Eu me lembrava dela tropeçando até a mesa no primeiro dia, deslizando pelo gelo antes do acidente, caindo embaixo do batente da porta ontem… Era impar, eles estavam certos. Ela era desastrada.

Eu não sabia por que aquilo era tão engraçado para mim, mas eu estava rindo em voz alta enquanto andava da aula de História Americana para o Inglês e muitas pessoas me lançaram olhares cuidadosos. Como eu não tinha percebido isso antes? Possivelmente por que havia algo bem gracioso em sua calma, no jeito que ela mantinha a cabeça, o arco do seu pescoço…

Não havia nada de gracioso nela agora. Mr. Varner assistia ela prender a ponta de sua bota no carpete e literalmente cair na sua cadeira.

Eu ri de novo.

O tempo se movia incrivelmente lento enquanto eu esperava para vê-la com meus próprios olhos. Finalmente o sinal tocou. Eu corri até a cafeteria para assegurar meu lugar. Eu era o primeiro a chegar lá. Escolhi uma mesa que normalmente estava vazia, e eu estava seguro de permanecer no caminho que tinha me levado a sentar ali.

Quando minha família entrou e me viu sentado sozinho em meu novo lugar eles não estavam surpresos. Alice devia ter avisado a eles.

Rosalie passou por mim sem me olhar.

Idiota.

Rosalie e eu nunca tivemos um relacionamento fácil – eu a ofendi na primeira vez que ela me ouviu falar, e foi ladeira abaixo desde então – mas parecia que elas estava mais temperamental nesses últimos dias. Eu suspirei. Para Rosalie tudo era sobre ela mesmo.

Jasper me deu um sorriso torto e continuou a andar.

Boa sorte, ele pensou duvidosamente.

Emmett rolou os olhos e balançou a cabeça.

Perdeu a cabeça, pobre garoto.

Alice estava radiante, seus dentes brilhando mais do que deviam.

Posso falar com Bella agora?

“Fique fora disso,” Eu disse através da minha respiração.

Seu rosto ficou triste, e então brilhou de novo.

Tudo bem. Seja teimoso. É só uma questão de tempo.

Ela suspirou de novo.

Não se esqueça da aula de laboratório de biologia de hoje, ela me lembrou.

Eu acenei com a cabeça. Não, eu não me esqueci disso.

Enquanto eu esperava Bella chegar, eu a segui através dos olhos do calouro que andava atrás de Jessica, no caminho para a cafeteria. Jessica estava tagarelando sobre o próximo baile, mas Bella não disse nada em resposta. Não que Jessica tivesse dado muita chance a ela de responder.

No momento em que Bella passou pela porta, seus olhos fitaram momentaneamente a mesa onde meus irmãos se sentavam. Ela observou por um momento, e então sua testa se enrugou e seu olhar baixou até o chão. Ela não havia me notado.

Ela parecia tão… triste. Eu senti uma urgência enorme em levantar e ir até ela, para confortá-la de alguma forma, eu só não sabia o que ela acharia reconfortante. Eu não tinha idéia do motivo que a fizera parecer daquela forma. Jessica continuava a matraquear sobre o baile. Será que Bella estava triste que iria perder isto? Aquilo não parecia muito provavell…

Mas poderia ser remediado, se ela quisesse.

Ela comprou uma bebida para o seu almoço e nada mais. Aquilo estava certo? Será que ela não precisava de mais nutrientes do que apenas aquilo? Eu nunca prestei muita atenção à dieta de um humano antes. Humanos eram tão exacerbadamente frágeis! Havia milhões de coisas com que deviam se preocupar…

“Edward Cullen está encarando você novamente,” eu ouvi Jessica dizer. “Por que será que ele está sentado sozinho hoje?”

Eu estava agradecido a Jessica – apesar de ela estar ainda mais ressentida agora – porque Bella levantou a cabeça e seus olhos procuraram até que encontrassem os meus.

Não havia traço de tristeza em sua face, agora. Eu me permiti acreditar que ela estava triste por imaginar que eu havia ido embora mais cedo, e a esperança desse pensamento me fez sorrir.

Eu a chamei com meu dedo para que ela se juntasse a mim. Ela pareceu tão surpresa com aquilo que eu quis provocá-la novamente.

Então eu pisquei e ela ficou boquiaberta.

“Ele está chamando você?” Jessica perguntou com desprezo.

“Talvez ele precise de ajuda com o dever de biologia,” ela disse em uma voz baixa e cheia de incerteza. “Um, é melhor eu ver o que ele quer.”

Este foi um outro sim.

Ela tropeçou duas vezes no caminho para a minha mesa, apesar de não haver nada no seu rumo além de um piso perfeitamente plano. Sério, como eu deixei de notar isto antes? Eu estava prestando mais atenção aos seus pensamentos silenciosos, creio eu… O que mais eu teria perdido?

Seja honesto, seja claro eu repeti para mim mesmo.

Ela parou atrás da cadeira que estava a minha frente, hesitante. Eu respirei fundo, dessa vez pelo meu nariz e não pela boca.

Sinta a queimação, eu pensei objetivamente.

“Por que você não se senta comigo hoje?” Eu perguntei a ela.

Sem tirar os olhos de mim por um instante, ela puxou a cadeira e sentou-se. Ela parecia nervosa, mas sua aceitação física era um outro sim.

Eu esperei que ela falasse.

Levou um momento, mas finalmente ela falou, “Isto é diferente.”

“Bem…” Eu hesitei “Eu decidi, de uma vez que eu vou para o inferno, posso muito bem fazer o serviço completo

O que me fez dizer aquilo? Eu suponho que pelo menos tenha sido honesto. E talvez ela tivesse ouvido o aviso sutil que minhas palavras continham. Talvez ela entendesse que ela deveria se levantar e sair dali o mais rápido que pudesse…

Ela não se levantou. Ela me encarava, esperando, como se eu não tivesse terminado minha frase.

“Sabe, não tenho a mínima idéia do que você quis dizer, ” ela disse quando percebeu que eu não continuaria.

Aquilo foi um alívio, eu sorri.

“Eu sei.”

Era difícil ignorar os pensamentos que vinham detrás de suas costas, gritando para mim – E eu queria mudar de assunto, também.

“Eu acho que seus amigos estão zangados comigo por eu ter te roubado deles.”

Isso pareceu não a preocupar. “Eles sobreviverão.”

“Eu posso não devolver você, então.” Eu não fazia idéia se eu estava tentando ser honesto agora ou apenas tentando provocá-la de novo. Estar perto dela tornava difícil dar sentido aos meus próprios pensamentos.

Bella engoliu seco.

Eu ri da expressão dela. “Você parece preocupada,” Aquilo realmente não deveria ser divertido, ela deveria estar preocupada.

“Não.” Ela era uma péssima mentirosa; não a ajudou em nada que sua voz falhasse. “Surpresa, na verdade… o que você quer afinal?”

“Eu te disse, me cansei de tentar ficar longe de você. Então estou desistindo.” Eu segurei meu sorriso com um pouco de esforço. Isso não estava funcionando nem um pouco – tentando ser honesto e casual ao mesmo tempo.

“Desistindo?” ela repetiu perplexa.

“Sim – desistindo de tentar ser bonzinho.” E aparentemente desistindo de tentar ser casual. “Eu simplesmente vou fazer o que eu quiser, agora, e deixar que aconteça o que tiver de acontecer.” ( no livro “Crepúsculo” esta traduzido assim: …e deixar os dados rolarem.  Mas a trad. de vcs ficou melhorJ )

Aquilo foi honesto o bastante. Deixe que ela veja meu egoísmo. Deixe que isto a alerte, também.

“Não estou entendendo nada de novo.” / ” Você esta me confundindo de novo “

Eu era egoísta o bastante para estar feliz que este fosse o caso. “Eu sempre falo muito quando estou conversando com você – este é um dos problemas.”

Um problema bem insignificante, comparado a todos os outros.

“Não se preocupe,” ela reafirmou. “Eu não entendo nada mesmo…”

Ótimo, então ela não iria fugir. “Eu estava contando com isso.”

“Então, falando sem rodeios, somos amigos agora?”

Eu ponderei por um instante. “Amigos…” eu repeti. Não gostei do som daquilo. Não era o bastante.

“Ou não,” ela sussurrou, parecendo embaraçada.

Será que ela pensava que eu não gostava dela o bastante?

Eu sorri. “Bem, podemos tentar, eu acho. Mas eu vou alertar que eu não sou um bom amigo para você.”

Eu esperei pela resposta ansiosamente – esperando que finalmente ela ouvisse e entendesse, e imaginando que eu pudesse morrer se ela o fizesse. Que melodramático. Eu estava me tornando humano demais perto dela.

Seu coração batia rápido. “Você diz muito isso.”

“Sim, porque você não está me dando ouvidos.” Eu disse, muito intensamente outra vez. “Eu ainda espero que você acredite nisso. Se for esperta, você vai me evitar.”

Ah, mas será que eu permitiria que ela fizesse isso, se tentasse?

Seus olhos se estreitaram. “Eu acho que você deixou clara a sua opinião, a respeito do meu intelecto.”

Eu não estava certo sobre o que ela quis dizer, mas eu sorri me desculpando, imaginando que eu a tivesse ofendido acidentalmente.

“Então,” ela disse devagar. “Enquanto eu estiver sendo… boba, vamos tentar ser amigos?”

“É isso o que parece.”

Ela olhou para baixo, examinando a garrafa de limonada que tinha em mãos.

A velha curiosidade me atormentava.

“O que você está pensando?” Eu perguntei – pelo menos era um alívio dizer estas palavras em voz  alta finalmente

Seu olhar encontrou o meu, e sua respiração acelerou enquanto suas bochechas coraram, eu inspirei, sentindo o saboreando o ar.

“Eu estou tentando imaginar o que você é.”

Segurei o sorriso em meu rosto, travando minha feição naquela forma, enquanto o pânico percorria todo o meu corpo.

É claro que ela estava pensando naquilo. Ela não era estúpida. Eu não podia esperar que ela fosse deixar de notar algo tão evidente.

“Você está tendo alguma sorte nisso?” Perguntei da forma mais sutíl que pude.

“Não muita.” Ela admitiu.

Eu ri suavemente com a resposnta, sentindo um súbito alivio. “Quais são suas teorias?”

Elas não poderiam ser piores que a verdade, qualquer que fossem.

Suas bochechas ficaram ainda mais vermelhas, e ela não disse nada. Eu podia sentir no ar o calor do seu rubor.

Tentei usar meu tom persuasivo nela. Isso era algo que funcionava muito bem em humanos normais.

“Não vai me dizer?” Sorri, encorajando-a.

Ela balançou a cabeça negativamente. “É muito embaraçoso.”

Ugh. Não saber era pior do que qualquer outra coisa. Por que as especulações dela a deixariam embaraçada? Não pude suportar a curiosidade.

“É muito frustrante, sabe.”

Minha reclamação disparou algo nela. Seus olhos brilharam e as palavras fluíram mais rapidamente que o normal.

“Não. Eu não posso imaginar poque isso pode ser minimamente frustrante – apenas porque alguém se recusa a lhe dizer o que está pensando, mesmo se durante todo o tempo estivesse fazendo apenas pequenas observções enigmáticas com a única intenção de lhe deixar acordado a noite tentando imaginar o que é que elas podem significar… agora, por que isso seria frustrante?”

Eu franzi as sobrancelhas para ela, irritado por aceitar que ela estava certa. Eu não estava sendo justo.

Ela continuou. “Ou melhor, dizer também que esta pessoa fez um monte de coisas bizarras, desde salvar sua vida sob circunstâncias impossíveis em um dia até te tratar como um estranho no dia seguinte, e jamais te explicar nem uma coisa nem outra, mesmo depois de prometer fazê-lo. Isso também não seria frustrante.”

Foi o mais longo discurso que eu a ouvi fazer, e isso acrescentou mais uma qualidade na minha lista.

“Você é meio temperamental, não?”

“Eu não gosto de dois pesos e  duas-medidas.”

Sua irritação era completamente justificavel, é claro.

Eu encarei Bella, imaginando como eu poderia possivelmente fazer qualquer coisa certa por ela, até que o silêncio gritante na cabeça de Mike Newton me distraiu.

Ele estava tão irado que me fez rir.

“O que é?” ela exigiu.

“O seu namorado parece estar pensando que eu estou sendo rude com você – ele está se questionando se deve ou não vir aqui apartar a nossa briga.” Eu gostaria de vê-lo tentar. Eu ri novamente.

“Eu não sei do que você está falando”, ela disse de forma fria “Mas de qualquer forma, eu tenho certeza que você está enganado.”

Eu gostei muito do modo como ela o rejeitou com sua sentença desdenhosa.

“Eu não estou. Eu já te disse, a maioria das pessoas é fácil de ler.”

“Exceto eu, é claro.”

“Sim. Exceto você.” Ela tinha que ser a exceção à tudo? Não seria mais justo – considerando tudo mais com que eu tinha que lidar no momento – se eu pudesse ler ALGUMA COISA em sua cabeça? Era pedir muito? “Eu me pergunto o porquê disso.”

Ela olhou ao longe. Ela abriu sua limonada e tomou um curto e rápido gole, seus olhos na mesa.

“Você não está com fome?” eu perguntei.

“Não,” ela olhava a mesa vazia entre nós. “Você?”

“Não, eu não estou com fome.” eu disse. Eu definitivamente não estava.

Ela encarava a mesa com seus lábios cerrados. Eu esperei.

“Você pode me fazer um favor?”, ela perguntou, subitamente encontrando meus olhos novamente.

O que ela poderia querer de mim? Ela perguntaria sobre a verdade a qual eu não era permitido dizer à ela – a verdade que eu queria que ela nunca, nunca soubesse?

“Depende do que você quer”.

“Não é muito”, ela prometeu.

Eu esperei, curioso de novo.

“Eu só estava imaginando…” ela disse lentamente, olhando para a garrafa de limonada, traçando a boca da garrafa com o seu dedo mínimo “se você poderia me avisar com antecedência na próxima vez que você resolver me ignorar para o meu próprio bem. Só pra eu me preparar.”

Ela queria um aviso? Então ter sido ignorada por mim deve ter sido alguma coisa ruim… eu sorri.

“Parece justo.” eu concordei.

“Obrigada.” ela disse, olhando para cima. Sua face estava tão aliviada que eu quis rir do meu próprio alívio.

“Então posso ter uma resposta em retorno?” eu perguntei, esperançosamente.

“Uma” – Ela concedeu

“Me diga uma das suas teorias.”

Ela corou “Essa não.”

“Você não qualificou, você só prometeu uma resposta”, eu argumentei.

“Você também já quebrou suas promessas.”, ela argumentou de volta.

Ela estava certa.

“Só uma teoria – eu não vou rir.”

“Vai sim”. Ela parecia estar bem certa disso, apesar de eu não conseguir imaginar nada que pudesse ser engraçado quanto a isso.

Tentei usar a persuasão outra vez. Olhei fundo nos olhos dela – uma coisa fácil de se fazer, com olhos tão intensos – e sussurrei. – “Por favor?”

Ela piscou, o rosto ficando vazio.

Bem, essa não era exatamente a reação que eu queria.

– É… o quê? – ela perguntou. Parecia tonta. O que havia de errado com ela?

– Por favor, me conte só uma teoriazinha. – eu pedi com minha voz macia e não-assustadora, segurando seus olhos nos meus.

Para minha surpresa e satisfação, finalmente funcionou.

-Hmmm, bom, foi picado por uma aranha radioativa?

História em quadrinhos? Não era à toa que ela achou que eu iria rir.

– Isso não é muito criativo. – eu a reprovei, tentando escondeu meu alívio.

– Desculpe , é só o que eu tenho. – ela disse, ofendida.

Isso me deixou ainda mais aliviado. Consegui provocá-la de novo.

– Nem chegou perto.

– Nada de aranhas?

– Nada.

– E nada de radioatividade?

– Nada.

– Droga. – ela suspirou.

– A kriptonita também não me incomoda. – eu respondi depressa – antes que ela pudesse perguntar sobre mordidas – e então tive que rir, porque ela achava que eu era um super-herói.

– Não devia rir, lembra?

Apertei os lábios.

– Um dia eu vou descobrir. – ela prometeu.

E quando ela o fizesse, iria fugir.

– Gostaria que não tentasse. – eu disse, todos os sinais da provocação ausentes.

– Por que…

Devia honestidade a ela. Tentei sorrir, deixar minhas palavras menos ameaçadoras. – “E se eu não for um super-herói? E se eu for o vilão?”

Seus olhos se arregalaram ligeiramente e os lábios se separaram um pouco. – Ah. – ela disse. E então, depois de um segundo. – Entendi.

Ela finalmente tinha me ouvido.

– Entendeu? – eu perguntei, tentando esconder minha agonia.

– Você é perigoso? – ela adivinhou. A sua respiração aumentou e o coração acelerou.

Não conseguia respondê-la. Esse era meu último momento com ela? Ela iria fugir agora? Eu seria capaz de dizer que a amava antes que ela partisse? Ou isso a assustaria ainda mais?

– Mas não mau. – ela sussurrou, balançando a cabeça, sem medo nos olhos intensos. – Não, não acredito que você seja mau.

– Está errada. – eu disse baixo.

É claro que eu era mau. Eu não estava feliz agora, que ela pensava melhor de mim do que eu merecia? Se eu fosse uma boa pessoa, eu teria ficado longe dela.

Eu estiquei minha mão pela mesa, pegando a tampa da garrafa de limonada dela como uma desculpa. Ela não recuou da minha mão próxima. Ela realmente não tinha medo de mim. Ainda não.

Eu girei a tampa rapidamente, prestando atenção ao invés de olhar para ela. Meus pensamentos estavam confusos.

Corra, Bella, corra. Não conseguia falar as palavras em voz alta.

Ela ficou de pé. – Vamos chegar atrasados. – ela disse, bem quando eu comecei a me preocupar que de algum modo ela tinha escutado meu aviso silencioso.

– Eu não vou à aula hoje.

– E por que não?

Porque eu não quero matar você. – “É saudável matar aula de vez em quando.”

Para ser exato, era saudável para os humanos quando os vampiros matavam aula nos dias em que sangue humano seria derramado. O Sr. Banner ia fazer tipagem sanguínea hoje. Alice já tinha matado sua aula pela manhã.

Bom, eu vou. – ela disse. Isso não me surpreendeu. Ela era responsável – sempre fazia a coisa certa.

Ela era o meu oposto.

– A gente se vê depois, então. – eu disse, tentando parecer casual novamente, olhando a tampa que rodava. E, por falar nisso, eu adoro você… de jeitos perigosos, assustadores.

Ela hesitou, e eu esperei por um momento que ela fosse ficar comigo. Mas o sinal tocou e ela se apressou.

Esperei até que ela tivesse desaparecido, e então guardei a tampa no meu bolso – uma lembrança dessa conversa importante – e andei pela chuva para o meu carro.

Coloquei o CD que mais me acalmava – o mesmo que tinha colocado naquele primeiro dia – mas não estava escutando as notas de Debussy por muito tempo. Outras notas estavam passando rápidas por minha cabeça, o fragmento de uma melodia que me agradava e me intrigava. Abaixei o rádio e escutei a música em minha cabeça, tocando o fragmento até que se desenvolveu para uma harmonia completa. Instintivamente, meus dedos se moveram no ar sobre teclas imaginárias.

A nova composição estava realmente surgindo quando minha atenção foi desviada por uma onda de angústia mental.

Eu procurei na direção da aflição.

Ela vai desmaiar? O que eu faço? Mike estava em pânico.

A noventa metros, Mike Newton estava abaixando o corpo mole de Bella na calçada. Ela escorregou sem reação no concreto molhado, os olhos fechados, a pele pálida como a de um cadáver.

Eu quase arranquei a porta do carro.

– Bella? – gritei.

Não houve mudança em seu rosto sem vida quando eu gritei seu nome.

Meu corpo todo ficou mais frio que gelo.

Estava ciente da surpresa irritada de Mike enquanto varria furiosamente seus pensamentos. Ele só estava pensando em seu ódio por mim, então eu não sabia o que havia de errado com Bella. Se ele tivesse feito algo para machucá-la eu iria aniquilá-lo.

– Qual é o problema… Ela se machucou? – eu ordenei, tentando concentrar seus pensamentos. Era enlouquecedor ter que andar na velocidade humana. Eu não devia ter chamado atenção para a minha aproximação.

Então eu pude escutar o coração dela batendo e cada respiração que dava. Enquanto eu observava, ela apertou os olhos fechados. Isso aliviou um pouco do meu pânico.

Eu vi um lampejo de memórias na cabeça de Mike, rápidas imagens da classe de biologia. A cabeça de Bella na mesa, sua pele ficando verde. Gotas de vermelho contra cartões brancos…

Tipagem sanguinea.

Eu parei onde eu estava, segurando a minha respiração. O cheiro dela era uma coisa, o seu sangue escorrendo era outra totalmente diferente.

“Eu acho que ela está passando mal.” Mike disse, ansioso e ressentido ao mesmo tempo. “Eu não sei o que aconteceu, ela nem furou o dedo.”

O alívio passou por mim, e eu respirei novamente, sentindo o ar. Ah, eu pude sentir o cheiro da pequena ferida de Mike Newton. Uma vez, isso teria sido extremamente apelativo para mim.

Eu me ajoelhei perto dela enquanto Mike se remexia ao meu lado, furioso com a minha intervenção.

“Bella. Você consegue me ouvir?”

“Não”, ela gemeu. “Vá embora”.

Eu ri. Ela estava bem.

“Eu estava levando ela para a enfermaria”, Mike disse “Mas ela não conseguiu ir adiante”.

“Eu vou levar ela. Você pode voltar para a sala de aula.” eu disse, indiferente.

Os dentes de Mike trincaram. “Não. Sou eu quem deve fazer isso”.

Eu não ia ficar parado ali argumentando com aquele infeliz.

Exitado e apavorado, meio-agradecido e meio-aflito pela situação desagradável que fez o toque dela uma necessidade, suavemente levantei Bella da calçada e mantive-a nos meus braços, tocando só a sua roupa, mantendo tanta distância entre os nossos corpos enquanto possível. Eu andava com passos largos para a frente no mesmo movimento, em uma pressa para mantê-la a salvo – mais longe de mim, em outras palavras.

Seus olhos se abriram, atônitos.

“Me ponha no chão!” ela ordenou em uma voz fraca – embaraçada de novo, eu adivinhei pela sua expressão. Ela não gostava de demonstrar fraquezas.

Eu mal ouvia Mike gritando seus protestos atrás de nós.

“Você parece horrível” eu disse a ela, sorrindo com alívio de que não houvesse nada de errado com ela além de uma cabeça leve e um estômago fraco.

“Me coloque de volta na calçada”, ela disse. Seus lábios estavam brancos.

“Então você passa mal quando vê sangue?” isso podia ser mais irônico?

Ela fechou seus olhos e pressionou seus lábios juntos.

“E nem é o seu próprio sangue” eu acrescentei, meu sorriso aumentando.

Nós estávamos na frente da secretaria. A porta estava levemente aberta, e eu a chutei para sair de nosso caminho.

A senhorita Cope pulou, assustada. “Meu Deus,” ela engasgou enquanto examinava a garota pálida nos meus braços.

“Ela passou mal na aula de Biologia”, eu expliquei, antes que a sua imaginação começasse a ir para muito longe.

A Srta. Cope se apressou em abrir a porta da enfermaria. Os olhos de Bella estavam abertos novamente, observando-a.

Ouvi o assombro interno da enfermeira idosa enquanto eu deitava a garota cuidadosamente em uma cama gasta. Tão logo Bella estivesse fora de meus braços, eu coloquei a distância da sala entre nós. Meu corpo estava muito excitado, muito ansioso, meus músculos tensos e o veneno fluindo. Ela era muito quente e perfumada.

“Ela só está um pouco enjoada”, eu assegurei à Senhora Hammond. “Eles estão fazendo tipagem sanguinea na aula de Biologia.”.

Ela balançou a cabeça, compreendendo. “Sempre tem um.”

Eu abafei uma risada. Confie em Bella para ser aquele um.

“Fique um pouco deitada, meu bem” Sra. Hammond disse.  “Vai passar logo”.

“Eu sei” Bella disse.

“Isso acontece muito?” a enfermeira perguntou.

“As vezes” Bella admitiu.

Eu tentei disfarçar minha risada em uma tossida.

Isso trouxe a atenção da enfermeira para mim. “Você pode voltar para a sala agora” ela disse.

Eu a olhei diretamente nos olhos e menti confiantemente “Eu devo ficar com ela.”

Hmm. Eu imagino… oh, bem. Sra. Hammond balançou a cabeça.

Isso funcionou perfeitamente com ela. Por que com Bella tinha que ser tão difícil?

“Eu vou pegar um pouco de gelo pra você colocar na sua testa, querida” a enfermeira disse, ligeiramente pouco confortável por olhar em meus olhos – do modo que um humano devia ser – e deixou a sala.

“Você estava certo”, Bella lamentou, fechando seus olhos.

O que ela queria dizer? Eu fui direto para a pior conclusão: ela tinha aceitado os meus avisos.

“Eu geralmente tenho” eu disse tentando parecer divertido. “Mas sobre o que em particular desta vez?”

“Faltar à aula é saudável.” ela suspirou.

Ah, alívio de novo.

Ela ficou em silêncio então. Ela só respirava lentamente para dentro e para fora. Seus lábios estavam começando a ficar rosados. Sua boca estava ligeiramente fora do equilíbrio, seu lábio inferior estava um pouco mais cheio do que o superior. Olhar para a sua boca me fazia me sentir estranho. Me fazia querer me mover para mais perto dela, o que não era uma boa idéia.

“Você me assustou por um minuto lá fora,” eu disse – para reiniciar a conversa – então eu podia ouvir a sua voz novamente. “Eu pensei que Mike estava arrastando o seu cadáver pra enterrá-lo no bosque”.

“Ha ha”. ela disse.

“Honestamente – eu já vi cadáveres com uma cor melhor.” Isso era realmente verdade.  “Eu já estava preocupado em ter que vingar o seu assassinato”. E eu teria mesmo.

“Pobre Mike.” ela suspirou “Eu aposto que ele está bravo”.

“Ele absolutamente me detesta.” eu disse a ela, animado com a idéia.

“Você não tem como saber disso”.

“Eu vi o rosto dele – eu posso dizer.” Provavelmente seria verdade se ao ler a face dele eu conseguisse obter tais informações para fazer essa dedução em particular. Toda essa prática com a Bella estava afiando a minha habilidade em ler expressões humanas.

“Como você me viu? Eu pensei que você estivesse escondido” seu rosto parecia melhor – o verde desbotado tinha desaparecido de sua pele translúcida.

“Eu estava no meu carro ouvindo um CD”.

Sua expressão se contorceu, como se a minha resposta comum a tivesse surpreendido de alguma forma.

Ela abriu seus olhos novamente quando a Sra. Hammond retornou com uma compressa fria.

“Aqui, querida” – a enfermeira disse enquanto colocava a compressa na testa de Bella. “Você parece melhor”.

“Eu acho que estou bem” Bella disse e sentou-se colocando a compressa longe. É claro. Ela não gostava que cuidassem dela.

As mãos enrugadas da Sra. Hammond estavam indo em direção à garota, como se quisessem fazer com que ela deitasse novamente, mas então a Srta. Cope abriu a porta e se inclinou para dentro da enfermaria. Com a sua entrada, veio um o cheiro de sangue fresco, como uma pequena explosão.

Invisível na secretaria por detrás dela, Mike Newton ainda estava bastante zangado, desejando que o garoto pesado que ele carregava agora fosse a garota que estava ali dentro comigo.

“Tem outro aqui”, Srta. Cope disse.

Bella rapidamente pulou da cama, ansiosa por deixar de ser o centro das atenções.

“Aqui” ela disse, estendendo a compressa de volta para a Sra. Hammond “Eu não preciso mais disso.”

Mike grunhiu enquanto ele empurrava um pouco Lee Stevens pela porta. O sangue ainda gotejava da mão que Lee segurava em seu rosto, pingando pelo seu pulso.

“Oh não”, essa era a minha deixa para sair – e Bella, também, aparentemente. “Bella, vá para a secretaria”.

Ela me olhou com olhos confusos.

“Confie em mim – vá.”

Ela se virou e alcançou a porta antes que ela se fechasse, se apressando em direção à secretaria. Eu a segui a alguns centímetros dela. Seu cabelo em movimento roçou minha mão…

Ela se virou para me olhar, ainda com olhos arregalados.

“Você realmente me ouviu”, isso era novidade.

Seu pequeno nariz se enrugou. “Eu senti o cheiro de sangue”

Eu a encarei com surpresa. “As pessoas não podem cheirar sangue”,

“Bem, eu consigo – é isso que me deixa doente. Tem cheiro de ferrugem e…sal.”

Meu rosto estava congelado, ainda a encarando.

Ela era realmente humana? Ela parecia humana. Ela era suave como um humano. Ela cheirava como um humano – bem, melhor na verdade. Ela agia como um humano… mais ou menos. Mas ela não pensava como um, ou respondia como um.

Quais eram as outras opções, então?

“O que é?”, ela perguntou.

“Não é nada”.

Mike Newton nos interrompeu então, entrando na secretaria com ressentidos, violentos pensamentos.

Você parece melhor.” ele disse a ela, rudemente.

Minha mão tremeu, querendo ensinar a ele algumas maneiras, eu teria que me monitorar, ou eu acabaria matando aquele garoto insolente.

“Mantenha a sua mão no bolso”, ela disse. Por um segundo selvagem, eu pensei que ela estava falando comigo.

“Não está mais sangrando”, ele respondeu tristemente “Você vai voltar pra aula?”

“Você tá brincando? Eu iria voltar pra cá na certa.”

Isso era muito bom. Eu tinha pensado que eu ia ter de perder esta hora inteira com ela, e agora eu tinha tempo extra em vez disso. Eu me senti ganancioso, um avarento procurando cada minuto.

“É, eu acho…” Mike murmurou. “Então, você vai esse fim de semana? Para a praia?”

Ah, eles tinham planos. A raiva passou por mim. Era uma viagem em grupo, entretanto. Eu tinha visto isso na cabeça de outros estudantes. Não eram só eles dois. Eu ainda estava furioso. Eu me inclinei praticamente sem movimentos contra o balcão, tentando me controlar.

“Claro, eu disse que ia.” ela prometeu a ele.

Então ela disse sim a ele, também. A inveja queimava, mais dolorosa do que a sede.

Não, era uma saída em grupo, eu tentei me convencer. Ela somente ia passar o dia com os amigos. Nada de mais.

“Vamos nos encontrar na loja do meu pai, as dez.” E o Cullen NÃO ESTÁ convidado.

“Eu estarei lá”, ela disse.

“Eu te vejo na aula de educação física, então.”

“A gente se vê”

Ele se virou para a sua classe, seus pensamentos estavam cheios de raiva.  O que ela vê naquela aberração? Claro, ele é rico, eu acho. As garotas acham que ele é lindo, mas eu não acho. Muito… muito perfeito. Eu aposto que o pai dele experimenta todas as cirurgias plásticas neles. É por isso que eles são tão brancos e bonitos. Não é natural. É um tipo de… aparência-assustadora. Algumas vezes, quando ele me encarava, eu poderia jurar que ele está pensando em me matar… aberração…

Mike não estava completamente errado em suas percepções.

“Educação física”, Bella repetiu silenciosamente. Um gemido.

Eu olhei para ela, e vi que ela estava triste com alguma coisa novamente. Eu não tinha certeza por que, mas estava claro de que ela não queria ir para a próxima aula com o Mike, e eu estava de acordo com esse plano.

Eu fui para o seu lado e me aproximei da sua face, sentindo o calor de sua pele irradiando diretamente para os meus lábios. Eu não me atrevi respirar.

“Eu posso cuidar disso”, eu murmurei. “Vá se sentar e fique pálida”

Ela fez o que eu pedi, sentando em uma das cadeiras vazias e inclinando a sua cabeça para trás, contra a parede, enquanto, atrás de mim, a Srta. Cope saiu da enfermaria e retornou à sua mesa. Com os olhos fechados, Bella parecia que estava passando mal novamente. Sua cor ainda não tinha voltado completamente.

Eu me virei para a secretária. Com esperanças de que Bella estivesse prestando atenção nisso, eu pensei sardonicamente. Esse é o modo como uma humana deveria responder.

“Sra Cope?” eu perguntei, usando a minha voz persuasiva de novo.

Seus cílios se agitaram, e o seu coração passou a bater mais rápido. Muito jovem, se controle! “Sim?”

Isso foi interessante. Quando o pulso de Shelly Cope acelerou, foi porque ela me achou fisicamente atraente, não porque ela estava assustada. Eu estava acostumado a isso quanto às fêmeas humanas… ainda eu não tinha considerado isso como explicação para a aceleração do coração da Bella.

Eu particularmente tinha gostado disso. Eu sorri e a respiração da Sra. Cope acelerou.

“A próxima aula de Bella é de Educação Física, e eu não acho que ela se sente bem o suficiente. Na verdade, eu acho que eu devia levar ela pra casa agora.A senhora acha que pode liberá-la dessa aula?” eu encarei profundamente seus olhos, me deliciando com a destruição que eu causava em seus processos mentais. Seria possível que Bella…?

Sra Cope teve que engolir em alto som antes que pudesse responder. “Você também precisa ser liberado, Edward?”

“Não, eu tenho aula com a Sra Goff, ela não vai se incomodar.”

Eu não estava prestando muita atenção nela agora. Eu estava explorando essa nova possibilidade.

Hmm. Eu gostava de acreditar que Bella me achava atraente como os outros humanos achavam, mas desde quando que Bella tinha as mesmas reações que os outros humanos? Eu não podia manter as minhas esperanças elevadas.

“Ok, então está tudo acertado. Melhoras, Bella.”

Bella acenou com a cabeça fracamente – exagerando um pouco.

“Você consegue caminhar, ou prefere que eu te carregue de novo?” eu perguntei, me divertindo com o teatro precário dela. Eu sabia que ela iria querer andar – ela não queria parecer fraca.

“Eu vou caminhando”. ela disse.

Certo de novo. Eu estava melhorando nisso.

Ela se pôs em pé, hesitante por um momento como se ela estivesse checando o seu equilíbrio. Eu segurei a porta para ela, e nós caminhamos para a chuva.

Eu olhava para ela erguendo o seu rosto para a chuva fraca, seus olhos fechados, um leve sorriso em seus lábios. O que ela estava pensando? Alguma coisa nessa cena parecia errado, e eu rapidamente percebi por que essa ação pareceu tão estranha para mim. Garotas humanas normais não levantariam o seu rosto para a garoa dessa maneira, garotas humanas normais normalmente usam maquiagem, mesmo aqui nesse lugar úmido.

Bella nunca usava maquiagem, nem deveria. As indústrias de cosméticos lucram bilhões de dólares por ano de mulheres que tentam conseguir uma pele como a dela.

“Obrigada”, ela disse, sorrindo para mim agora “Quase vale a pena ficar doente pra perder Educação física.”

Eu comecei a atravessar o campus, imaginando por quanto tempo eu devia prolongar meu tempo com ela. “É só pedir”, eu disse.

“Então você vai? Sábado, eu quero dizer.” ela parecia esperançosa.

Ah, a sua esperança era tranqüilizante. Ela me queria com ela, não Mike Newton. E eu queria dizer sim. Mas havia muitas coisas para considerar. Em primeiro lugar, o sol estaria brilhando nesse sábado…

“Onde vocês todos estão indo, exatamente?” eu tentei manter a minha voz indiferente, como se eu não me importasse muito. Mike tinha dito praia, entretanto. Não tinha muitas chances de escapar da luz do sol lá.

“Vamos à La Push, para Primeira Praia.” ( nome do local na verdade )

Droga. Bem, era impossível então.

De qualquer forma, Emmett ficaria irritado se eu cancelasse nossos planos.

Lancei os olhos abaixo para ela, sorrindo tortamente. “Eu não acho que eu tenha sido convidado”.

Ela suspirou, resignada. “Eu acabei de te convidar”.

“Eu e você não vamos mais abusar tanto do pobre Mike esse fim de semana. Nós não queremos que ele arrebente”. Imaginei eu mesmo fazendo com o que o pobre Mike arrebentasse e desfrutei dessa cena mental intensamente.

“Mike boboca”, ela disse, com desprezo novamente. Meu sorriso aumentou.

E então ela começou a andar para longe de mim.

Sem pensar sobre o que eu estava fazendo, eu me estiquei e a peguei pela parte de trás de seu casaco de chuva. Ela deu um solavanco ao parar.

“Onde é que você pensa que vai?” eu estava quase bravo por ela estar me deixando. Eu não tinha passado tempo suficiente com ela. Ela não podia ir embora, não ainda.

“Eu vou pra casa” ela disse, desconcertada quanto ao porque isso tinha me irritado.

“Você não me ouviu prometer que te levaria pra casa em segurança? Você acha que eu vou te deixar dirigir nessas condições?” eu sabia que ela não ia gostar disso – a minha implicação de fraqueza da sua parte.

Mas eu precisava praticar para a viagem à Seattle, de qualquer forma. Ver se eu agüentaria tê-la próxima em um espaço fechado. Essa era uma viagem muito mais curta.

“Que condições?” ela perguntou “E a minha caminhonete?”

“Eu vou pedir pra Alice levá-la depois da escola” eu a puxei de volta para o meu carro cuidadosamente, embora eu soubesse agora que andar pra frente era desafiador o suficiente para ela.

“Me solta!” ela disse, se contorcendo de lado, quase tropeçando. Eu ergui uma mão para segurá-la, mas ela se ajeitou antes que isso fosse necessário. Eu não devia ficar procurando desculpas para tocá-la. Aquilo fez com que eu começasse a pensar sobre a reação da Sra. Cope quando a mim, mas eu guardei isso para pensar depois. Tinha muito a ser considerado mais para frente.

Eu a deixei ao lado do carro, e ela cambaleou até a porta. Eu teria que ser ainda mais cuidadoso, levando em conta o seu equilíbrio precário…

“Você é muito mandão!”

“Está aberta.”

Eu entrei pelo meu lado do carro e dei a partida. Ela manteve o seu corpo rígido, ainda do lado de fora, apesar da chuva ter ficado mais forte e eu sabia que ela não gostava de frio e umidade. A água estava encharcando seu grosso cabelo, escurecendo-o até próximo do preto.

“Eu sou perfeitamente capaz de dirigir até em casa!”

É claro que ela era – eu somente não era capaz de deixá-la ir.

Eu abaixei o vidro do lado do carona e me inclinei em sua direção. “Entre no carro, Bella”.

Seus olhos se estreitaram e eu achei que ela estava se decidindo se devia ou não sair correndo.

“Eu vou pegar você de novo” eu prometi, desfrutando do desapontamento em seu rosto quando ela percebeu que eu estava falando sério.

Seu queixo se enrijeceu no ar, ela abriu a sua porta e entrou. Seu cabelo pingou no couro do banco e suas botas rangeram uma contra a outra.

“Isso foi completamente desnecessário” ela disse friamente. Eu achei que ela parecia embaraçada por debaixo da humilhação.

Eu aumentei o aquecedor, portanto ela não se sentiria desconfortável, e coloquei a música em um bom nível de fundo. Eu dirigi em direção à saída, observando-a pelos cantos dos olhos. O seu lábio inferior se sobressaia fazendo beicinho. Eu encarei isso, examinando como que fazia me sentir… pensando na reação da secretária de novo…

De repente, ela olhou para o rádio e sorriu, seus olhos arregalados. “Clair de Lune?” ela perguntou.

Uma fã dos clássicos? “Você conhece Debussy?”

“Não muito”, ela disse “Minha mãe toca muita musica clássica em casa. Eu só conheço as minhas favoritas.”

“É uma das minhas favoritas também”, Eu olhei para a chuva, considerando isso. Eu realmente tinha algo em comum com a garota. Eu tinha começado a pensar que nós éramos opostos em todos os sentidos.

Ela parecia mais relaxada agora, olhando para a chuva como eu, com olhos vagos. Eu aproveitei a sua distração momentânea para testar a minha respiração.

Eu inalei cuidadosamente pelo meu nariz.

Potente.

Eu apertei a direção com força. A chuva a fazia cheirar melhor. Eu não pensava que isso fosse possível. Estupidamente, eu estava subitamente imaginando como devia ser o seu sabor.

Eu tentei engolir contra a queimação em minha garganta, pensar em alguma coisa diferente.

“Como é a sua mãe?” eu perguntei como distração.

Bella sorriu. “Ela se parece muito comigo, mas ela é mais bonita.”

Eu duvidava disso.

“Eu tenho muito de Charlie em mim.” ela continuou. “Ela é mais divertida que eu, e mais corajosa.”

Eu duvidava disso, também.

“Ela é irresponsável e um pouco excêntrica e uma cozinheira muito imprevisível. Ela é minha melhor amiga.” Sua voz se tornou melancólica, sua testa se enrugou.

De novo, ela mais parecia como um pai do que um filho.

Eu parei na frente de sua casa, imaginando tarde demais se eu devia saber onde ela morava. Não, isso não era suspeito em uma cidade pequena, com seu pai sendo uma figura pública…

“Quantos anos você tem, Bella?” ela devia ser mais velha que as outras pessoas. Talvez ela tenha começado mais tarde a escola, ou tenha reprovado… isso não era agradável, de qualquer forma.

“Eu tenho dezessete” ela respondeu.

“Você não parece ter dezessete”

Ela riu.

“O que foi?”

“Minha mãe sempre diz que eu nasci com trinta e cinco anos de idade e que fico mais velha a cada ano que passa.” Ela riu de novo e suspirou “Bem, alguém tem que ser o adulto”.

Isso esclarecia as coisas para mim. Eu podia ver agora… como a irresponsabilidade da mãe ajudava a explicar a maturidade de Bella. Ela teve que crescer mais cedo, para se tornar a responsável. Era por isso que ela não gostava de ser cuidada – ela sentia que era o seu trabalho.

“Você também não parece um jovenzinho”, ela disse, me puxando de meus devaneios.

Eu fiz uma careta. Para cada coisa que eu percebia sobre ela, ela percebia muito mais em resposta. Eu mudei de assunto.

“Então porque sua mãe se casou com Phil?”

Ela hesitou por um minuto antes de responder. “Minha mãe…ela é muito jovem para a idade dela. Acho que Phil a faz se sentir ainda mais jovem. De qualquer forma, ela é louca por ele.” ela agitou a sua cabeça indulgentemente.

“Você aprova?” eu imaginei.

“Isso importa?” ela respondeu “Eu quero que ela seja feliz…e é ele que ela quer.”

A falta de egoísmo de seus comentários deviam ter me chocado, exceto que isso encaixava perfeitamente com tudo que eu havia aprendido de sua personalidade.

“Isso é muito generoso… eu imagino…”

“O quê?”

“Se ela estenderia a mesma cortesia pra você, você acha? Não importa qual seja a sua escolha?”

Essa foi uma pergunta tola, e eu não consegui manter o tom casual em minha voz enquanto eu perguntava isso. Como era estúpido se quer considerar alguém me aprovando para a sua filha. Como era estúpido se quer imaginar Bella me escolhendo.

“E-eu acho que sim” ela gaguejou, reagindo de alguma forma ao meu olhar fixo. Medo… ou atração?

“Mas de qualquer forma ela é uma mãe, apesar de tudo. É um pouco diferente” ela finalizou.

Eu sorri ironicamente. “Nada muito assustador então.”

Ela sorriu para mim. “O que você quer dizer com assustador? Vários piercings no corpo e tatuagens gigantescas?”

“É uma definição, eu acho”. Uma nem um pouco ameaçadora definição, na minha cabeça.

“Qual é a sua definição?”

Ela sempre fazia as perguntas erradas. Ou exatamente as perguntas certas, talvez. As que eu não queria responder, pelo menos.

“Você acha que eu poderia ser assustador?” eu perguntei a ela, tentando sorrir um pouco.

Ela pensou sobre isso antes de responder para mim em um tom sério. “Hmm… eu acho que você poderia ser, se você quisesse.”

Eu estava sério, também. “Você está com medo de mim agora?”

Ela respondeu de uma só vez, sem pensar agora. “Não.”

Eu sorri mais facilmente. Eu não achava que ela estava dizendo a verdade completamente, mas também não estava mentindo por completo. Ela não estava com medo o suficiente para querer ir embora, ao menos. Eu imaginava como que ela se sentiria se eu dissesse a ela que ela estava tendo essa discussão com um vampiro. Eu contraí meus músculos involuntariamente ao imaginar a sua reação.

“Então, agora você vai me falar sobre a sua família? Deve ser uma história bem mais interessante do que a minha.”

Mais assustadora, sem dúvida.

“O que você quer saber?” eu perguntei cautelosamente.

“Os Cullens te adotaram?”

“Sim.”

Ela hesitou, então falou em uma voz baixa. “O que aconteceu com os seus pais?”

Isso não era tão difícil; eu não estava tendo que mentir para ela. “Eles morreram há muitos anos atrás.”

“Eu lamento”, ela murmurou, claramente preocupada sobre ter me machucado.

Ela estava preocupada comigo.

“Na verdade eu não lembro deles muito claramente.” Eu assegurei a ela “Carlisle e Esme são meus pais há muito tempo agora.”

“E você os ama”, ela deduziu.

Eu sorri. “Sim. Eu não poderia imaginar duas pessoas melhores”.

“Você tem muita sorte.”

“Eu sei que tenho.” Naquela circunstância, quanto aos meus pais, minha sorte não podia ser negada.

“E seu irmão e sua irmã?”

Se eu deixasse que ela me pressionasse por muitos mais detalhes, eu teria que mentir. Eu lancei um olhar ao relógio, desanimado por meu tempo com ela estar no final.

“Meu irmão e minha irmã, e Jasper e Rosalie por falar neles, vão ficar bem bravos se tiverem que ficar na chuva esperando por mim”.

“Oh, desculpe, eu acho que você tem que ir”.

Ela não se mexeu. Ela não queria que o nosso tempo terminasse, também. Eu gostava muito, muito disso.

“E provavelmente você quer o seu carro aqui antes que Charlie chegue em casa, assim você não terá que contar pra ele sobre o acidente na aula de Biologia.”  Eu sorri com a memória dela embaraçada em meus braços.

“Eu tenho certeza que ele já sabe. Não existem segredos em Forks”. Ela disse o nome da cidade com um desgosto distinto.

Eu ri com as suas palavras. Não existem segredos, de fato. “Se divirta na praia.” eu lancei um olhar para a chuva torrencial, sabendo que ela não ia durar muito, e desejando mais forte que o normal que isso acontecesse. “Ótimo clima pra um banho de sol.” Bem, ao menos no sábado. Ela ia gostar disso.

“Eu não vou ver você amanhã?”

A preocupação em seu tom de voz me deixou feliz.

“Não. Emmett e eu vamos começar o fim de semana mais cedo.” Eu estava louco comigo mesmo agora por ter feito planos. Eu podia quebrá-los… mas não havia nada mais importante do que caçar nesse ponto, e minha família já estava ficando preocupada o suficiente com o meu comportamento sem eu revelar o quão obsessivo eu estava ficando.

“O que vocês vão fazer?” ela perguntou, não parecendo feliz com a minha revelação.

Bom.

“Nós vamos fazer uma caminhada nas  Goat Rocks ( não traduzam nomes próprios J ), ao sul do Monte Rainier.” Emmett estava ansioso pela temporada de ursos.

“Hum, bem, divirta-se”, ela disse de forma apática. Sua falta de entusiasmo me fez feliz novamente.

Ao olhar para ela, eu comecei a me sentir quase agoniado pelo pensamento de dizer um adeus temporário. Ela era tão delicada e vulnerável. Parecia imprudente deixá-la fora da minha vista, onde qualquer coisa podia acontecer com ela. E ainda, as piores coisas que poderiam acontecer com ela resultariam em estar ao meu lado.

“Será que você poderia fazer uma coisa por mim esse fim de semana?” eu perguntei seriamente.

Ela balançou sua cabeça, seus olhos arregalados e desnorteados com a minha intensidade.

Mantenha isso leve.

“Não se ofenda, mas você parece ser uma dessas pessoas que atraem acidentes como um imã. Então… tente não cair no oceano ou ser atropelada, está bem?”

Eu sorri pesarosamente para ela, esperando que ela pudesse ver a tristeza em meus olhos. Como eu desejava que ela não estivesse tão melhor longe de mim, não importasse o que acontecesse com ela.

Corra, Bella, corra. Eu amo você demais, para o seu próprio bem ou para o meu.

Ela ficou ofendida pela minha importunação. Ela olhou para mim. “Eu vou ver o que posso fazer”, ela soltou em um estalo, pulando para fora do carro na hora e batendo a porta com tanta força quanto ela podia atrás dela.

Como um gatinho bravo que acredita ser um tigre.

Eu apertei a mão ao redor da chave que eu tinha pego do bolso da jaqueta dela, e sorri enquanto eu dirigia para longe.

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